Quando falamos de capitalismo selvagem, muitos acabam pensando na exploração sem fim do capitalismo, nas horas de mais valia extraídas do pobre trabalhador, enfim, vêm logo à tona a figura de Charles Chaplin, sendo engolido pela velocidade sempre crescente da esteira em Tempos Modernos. Sim, sem dúvida uma ótima alusão. Porém, penso que a selvageria do capitalismo reside em outra alegoria. Se pararmos para pensar, a cada geração passada, a qualidade das relações humanas vem se deteriorando. Nos anos 50, as donas de casa nos Estados Unidos haviam voltado para os seus lares, depois do enorme esforço de substituir os homens empenhados na guerra. Estavam mais uma vez faceiras cuidando de seus lares e educando seus filhos e filhas. No Brasil, elas continuam a reinar absolutas em seus lares, nas cidades ou no campo. Nos anos 60, houve a pressão pela "libertação feminina" e pela igualdade entre os sexos. As cenas dos sutiãs sendo queimados ainda esta presente na mente das pessoas mais velhas. Desconfio que havia por trás disto tudo, outros interesses. Se pensarmos que o salário médio pago nos anos 50 e 60 permitia ao chefe de família sustentar sua família, ainda que com dificuldade, não era imperativo que a sua mulher trabalhasse. No final dos anos 60, este panorama foi sendo alterado, nos anos 70 tornou-se cada vez mais frequente a presença feminina no mercado de trabalho. Nos anos 80, a frequência tornou-se obrigatória. Com isto, um aumento na oferta geral de mão de obra, os salários despencaram. Pais e mães são obrigados a trabalhar, a prover o sustento de seus filhos. Estes vão cada vez mais cedo para as creches e das creches para as escolas. Nas escolas, encontram professores com salários cada vez menores, sendo obrigados a prover além do ensino e do conhecimento, a educação que nos anos anteriores era de exclusiva prerrogativa de seus pais, em geral de suas mães. A selvageria do capitalismo nos empurrou a todos para o mercado de trabalho, entregando os nossos filhos aos cuidados de outros. Estes por não terem laços de sangue, não tem a priori, nenhuma obrigação de fornecer aos nossos filhos nada mais que o básico. É assim que há a deterioração das relações humanas, com crianças cada vez mais distantes de ideais como família, de conceitos como respeito, comunhão, enfim, com crianças capazes de conviver harmonicamente com outras crianças e adultos. São pequenos seres altamente competitivos, sendo preparados desde cedo para enfrentar a lógica competitiva e pouco ética do mercado, do capitalismo. Sinto-me como os camponeses que tiveram os seus campos cercados (o movimento conhecido com enclousure ou cercamento dos campos) que expulsou-os para as cidades, onde forneceram toda a mão de obra de que necessitava o capitalismo emergente e permitiu a acumulação primitiva do capital. Estamos deixando de fornecer o mínimo aos nossos filhos, e, sem querer, preparandos-os para o mercado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário